De Volta ao Básico | 𝗣𝗼𝘀𝘁 #3

Há uma fórmula contratual que, na verdade, não uso nos meus rascunhos, mas à qual me habituei tanto ao longo dos anos que nunca a marco a vermelho.

“As disposições que, pela sua natureza, devam subsistir após a cessação do contrato, subsistirão.”

hand making digital signature

Ela aparece em quase todos os modelos.

Provavelmente já a leste milhares de vezes.

Agora a IA também a gera.

Ninguém a questiona.

É como aquela aplicação pré-instalada no teu telefone que nunca abres. Não sabes bem para que serve, mas nunca a apagas.

É poesia jurídica. O clássico texto vago o suficiente para criar problemas mais tarde.

Todos sabemos o que supostamente quer dizer

Contract destroyed

Algumas cláusulas estão pensadas para continuar a produzir efeitos mesmo depois de o contrato terminar.

Normalmente coisas como:

  • Confidencialidade

  • Obrigações de pagamento, como taxas ou comissões em dívida

  • Titularidade e licenças de propriedade intelectual

  • Indemnizações e resolução de litígios

O problema é que diferentes sistemas jurídicos leem esta frase de maneiras diferentes

Contract being analyzed

🇺🇸 Nos Estados Unidos, os tribunais olham para a intenção e para a necessidade, ou seja, para aquilo que as partes claramente quiseram dizer.

🇬🇧 No Reino Unido, o foco está na finalidade comercial, o que faz sentido para o negócio em causa.

🇪🇺 Em países de civil law, como Portugal, França ou Alemanha, as cláusulas de sobrevivência podem ser afastadas por normas legais que estabelecem que certos deveres cessam com o fim do contrato.

Por isso, a tua cláusula de “sobrevivência” pode afinal não sobreviver, sobretudo em contratos transfronteiriços de SaaS, acordos de saída de founders ou operações de venture funding.

A minha solução:

Deixa a cláusula lá, mas dá-lhe conteúdo.

Acrescenta uma frase a seguir:

“As disposições relativas à confidencialidade, pagamento, propriedade intelectual, indemnização e resolução de litígios subsistirão após a cessação do contrato.”

Porque, mesmo que a primeira frase soe bem, a clareza ganha sempre. 💬

📚 Leitura extra:

A Business Law Section da American Bar Association tem excelentes artigos sobre a forma como as cláusulas de sobrevivência devem funcionar em linha com a intenção das partes. Vale a pena uma leitura rápida antes de assinar.

https://www.americanbar.org/groups/business_law/resources/business-law-today/2025-march/making-sure-survival-clause-works-as-intended/

 

Posts Relacionados

07/08/2026

União de Facto e Nacionalidade Portuguesa: O Tribunal da Relação do Porto (TRP) entende que são competentes os Juízos de Família e Menores

Por Lidiane de Carvalho

07/08/2026

Trabalhadores Altamente Qualificados em Portugal: Autorização Única, Regimes Nacionais e Cartão Azul UE

Por Lidiane de Carvalho

04/08/2026

Contratação de Trabalhadores de Países Terceiros: Como a Diretiva da Autorização Única Impacta os Empregadores em Portugal

Por Lidiane de Carvalho